E agora José, para onde?

Português

E agora, José?
O protesto acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
e o movimento esfriou.

Depois de ter sido parte de um dos movimentos políticos mais incríveis que o Brasil viveu nos últimos anos, não pude deixar de me perguntar por que as coisas esfriaram tão rapidamente.

Por quê?

Porque em algum momento, muitas pessoas se cansaram de protestar, ou sentiram que não tinham tempo suficiente para isso. Para que protestar, por que se importar? “Nada vai mudar, é tudo a mesma porcaria, esses problemas não me afetam mesmo.” Você tem uma vida ocupada, trabalho, amigos, saídas, diversão. Tudo bem, justo.  Mas então como podemos melhorar?

Acredito que a falta de esperança atinge a maioria de nós quando pensamos em mudar o mundo, e provavelmente não seria diferente comigo se eu não tivesse lançado um vídeo sobre a Copa do Mundo no Brasil em junho de 2013.

ScreenCap of Carla Dauden's video "No, I'm not going to the World Cup"Há tristeza e alegria em mim quando penso no resultado do vídeo. Tenho certeza de que as consequências foram mais positivas do que negativas, mas não posso deixar de pensar que não é suficiente, que as pessoas que dividiram o vídeo num dia esquecerão dele no outro, que o mundo vai continuar girando e girando e que, em algum momento, a maioria não vai mais se importar. É como geralmente acontece: apesar de desejarmos um mundo melhor — e acredite, a grande maioria de nós deseja — também nos sentimos sem esperanças e acabamos aceitando as coisas como elas são porque achamos que o mundo nunca vai mudar.

ScreenCap of Carla Dauden's video "Yes, you can still go to the World Cup"Talvez ele não mude, mas quando penso sobre como os homens viviam há anos atrás e como vivemos hoje, sinto que avançamos. Levou-nos um bom tempo e, ainda que as coisas não estejam perfeitas, estamos chegando lá — e ainda há muito que podemos fazer para acelerar o processo. Da mesma forma que uma laranja podre pode estragar uma sacola inteira ou que um vírus pode afetar uma população toda, coisas boas podem nos impactar. Se um vírus tem tanto poder, por que as pessoas não podem ter esse poder também?

Assim, encho-me de esperança  quando penso que muitas pessoas fazendo o bem podem gerar grandes transformações, e apesar da maioria me dizer que meu vídeo abriu os olhos de muitos, eu digo o contrário, digo que a resposta ao meu vídeo abriu os meus olhos — me mostrou que um bocado de pessoas de fato se importam, e que meu vídeo pode talvez ter sido uma mínima parte de um enorme processo de mudanças.

Então como podemos fazer a diferença?

Por mais brega que soe, eu ousaria citar Michael Jackson quando ele diz que devemos começar com o homem no espelho. Não precisamos ir tão longe quanto ganhar na loteria, virar celebridade, doar todo o nosso dinheiro, ou dedicar uma vida inteira a mudar o mundo, mas podemos mudá-lo como um todo se fizermos o mundo ao nosso redor um pouco mais suportável, mais feliz, mais cheio de amor. Mais amor, mais tudo. É muito lindo, mas também é verdade, não podemos subestimar o poder que o amor tem. Amor pelos outros, pelos nossos amigos, família, parceiros, estranhos, empregados e empregadores; por todos e por tudo à nossa volta. Não quero de forma alguma pregar, mas tenho me perguntado muito sobre o mundo ultimamente, e quando penso em mudá-lo para melhor, o amor parece ser a resposta mais certa. Os Beatles já sabiam, e eles sabiam das coisas.

Agora, a fim de sermos ativos politicamente e lutar por causas que afetam mais que nossos próprios mundos, há mais do que só amor, há uma necessidade absoluta de informação. Nesse caso, temos que ser menos céticos, menos preguiçosos, mais informados. Temos que ter fé na informação, mas também questionar, questionar, questionar. Não em vão, mas com base no que sabemos e acreditamos, com um coração aberto e sem preconceitos.

“Eu fecho meus olhos para poder enxergar”

  • Paul Gauguin

Infelizmente, quando a hora de fazermos propostas reais para o Brasil chegou, foi difícil entrarmos em acordo, muitos desistiram de dar opiniões pois estavam sobrecarregados com as muitas informações que circulavam e não sabiam mais quem e o que apoiar. Justo. É difícil formar uma opinião sobre qualquer coisa quando não estamos profundamente envolvidos ou informados, e é praticamente impossível ter uma opinião sobre tudo; é muito melhor dizer que não temos uma opinião e então buscar informações. De fato, temos um fluxo de informações gigantesco, mas devemos ter em mente que, quando a busca por informações se torna um hábito, as pessoas logo começam a achar fontes que as representam e nas quais podem confiar. Isso requer prática e tempo, mas vale a pena.

Parece-me, portanto, que o movimento esfriou porque se manter informado ou se envolver com qualquer tópico leva tempo e dedicação, e isso é compreensível. Nesse caso, se você não tem o tempo, energia, ou até a vontade de se engajar politicamente – e isso não é de forma alguma uma crítica, não temos todos que estar na política – então pense como você pode fazer a sua parte nisso tudo, e fazer o mundo ao seu redor um pouco melhor e mais justo. Ame mais, dê mais, respeite mais, divida mais, e, principalmente, acredite no seu poder de fazer a diferença.

[hr]


Where do we go now?

English

What now, José?
The protest is over,
the lights are off,
people are gone,
and the movement is now soft.

After being part of one of the most amazing political movements Brazil has experienced in years, I couldn’t help wondering why things cooled down so quickly.

Why?

Because at some point, a lot of people got tired of protesting, or didn’t feel they had the time for it. Why protest, why care? “Nothing will change, it’s all the same crap, these problems don’t affect me anyway.” Fair enough, you have a busy life, work, friends, dates, fun. But then how can we change?

A feeling of helplessness reaches most of us when we think about changing the world, and it probably wouldn’t be different for me hadn’t I released a video about the World Cup in Brazil.

ScreenCap of Carla Dauden's video "No, I'm not going to the World Cup"

There’s sadness and happiness in me when I think about the outcome of the video; I am sure there’s more positive than negative consequences, but I can’t help thinking that it is not enough, that people who shared it one day will forget about it the next, that the world will keep going around and around and that no one will care at some point. It’s how it generally happens, despite the fact that we deeply desire a better world – and believe me, most of us do – we also feel helpless, and embrace the way things are because we feel the world will never change.

ScreenCap of Carla Dauden's video "Yes, you can still go to the World Cup"

Maybe it won’t, but when I think about the way men lived years ago and the way we live now, I feel we’ve come a long way; it took a while, and it’s still not good, but we are getting there and there’s a lot each one of us can do to speed up the process. The same way a rotten orange can rotten a whole bag, or that a single virus can affect an entire population, good things also can impact us. If a virus has so much power, why can’t good people have it too?

So I am filled with hope when I think that a lot of people doing good can bring a lot of good, and though many of the messages I received said that the video was eye-opening, I say it back, I say the response of people was eye-opening to me – it showed me that a hell of a lot of people actually care, and that my video may have been a tiny part of a huge process of changes.

Then, how can we make a difference?

As cheesy as it may sound, I would dare to quote Michael Jackson when he says we should start with the man in the mirror. We don’t need to go as far as being famous, donating all our money, winning the lottery, or dedicating our entire lives to changing the world, but we can change it as a whole if we make the world around us more bearable, more happy, more loving. More love, more everything – it’s beautiful, but it’s also true. We cannot underestimate the power it has. Love for others, for our friends, family, partners, strangers, employees, employers; for everyone and everything around us. I don’t mean in any ways to preach, but I’ve been doing a lot of thinking lately, and when I think about changing the world, love seems like the most reasonable answer. The Beatles knew it, and they knew everything there is to know.

Now, in order to be active politically and fight for causes that affect more than our own little worlds, there’s more than just love, there’s the absolute need for information.  In that case, we just have to be less skeptic, less lazy, more informed. We have to have faith in information, but also question, question, question. Not in vain, but based on what we know and what we stand for, with an open heart and no prejudices.

“I shut my eyes in order to see.”

– Paul Gauguin

Unfortunately, when the time came for real proposals to be made in Brazil a lot of us couldn’t get to an agreement, and many decided not to give an opinion because they were overwhelmed with all the information that was out there and didn’t know who and what to support. Fair enough, it is hard to form an opinion on any matter when you are not deeply involved with that matter, and it is almost impossible to have an opinion on everything, it’s much better to say we don’t in fact have an opinion, and then seek information. It’s a fact, we have an overwhelming income of information, but we have to keep in mind that as the pursue of information becomes a habit, people can soon start finding sources that represent them and that they can trust. It really takes practice and some hours, but they are worth it.

Therefore, it seems the movement cooled down because it takes a considerable amount of time to seek information or get deeply involved with any matter, and that’s understandable. In that case, if you don’t have time, energy, or even the willingness to be politically engaged – and that’s not in any way a criticism, we don’t all have to be politically engaged – just please think about how you can make your part in all of this and make the world around you better and more fair. Love more, give more, respect more, share more and most importantly, believe in your power to make a difference.

 

Carla’s Official website
Carla’s YouTube Channel
Carla’s AntiCast Interview
More links about the World Cup in the descriptions of the posted videos.

photo of Carla Toledo Dauden with text "No, I'm not going to the World Cup"

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